Correr
casa, paisagem, geografias, leirienses.
Voltei a correr. Quer dizer, fui correr uma vez por semana desde que o ano começou.
No passado, mesmo há muito tempo, corria bastante. Mais em uma semana do que agora num mês. Mas esses tempos já lá vão. Usava a corrida como um bom escape à cabeça e fiquei meio obcecada pela quilometragem da coisa. Tinha dois companheiros para as corridas do fim de semana. Ambos com mais de 50 anos e tratavam-me, na altura com 26 anos, como uma miúda/filha/sobrinha/mascote. O senhor Joaquim é benfiquista ferrenho, de tatuagem de ultramar no braço e que usava a corrida para fugir da esposa. E o senhor José, que conheci no ginásio, é um homem solitário, muito alto, eloquente e cavalheiro, que voltou à corrida depois do super susto de saúde.
A primeira vez que fui correr com eles, desafiada pelo José, fizemos 16km. Serviu-me de lição. Estas pernas gordinhas nunca mais foram de calções curtos fazer corridas longas.
As manhãs de domingo com eles eram um fartote. Ria-me tanto com esta dupla. Às custas das suas passadas seguras e certeiras fiz duas meias maratonas tranquilamente e abaixo das 2horas. Não me lembro quando e porque razão deixei de ir correr com eles. Não sei como estão. Passaram-se 15 anos.
Durante o covid voltei à estrada. De forma obsessiva, novamente, claro. Fazia corridas diárias, mas curtinhas para não “estragar” e garanti assim a minha sanidade mental no meio do caos que foram aqueles tempos.
Acho que a minha parte favorita das corridas era mesmo ir ver a rua. Cheguei a acenar aos condutores dos autocarros, um género de “obrigada" por continuarem a trabalhar. Naquela altura fotografei todos os dias os sítios por onde passava. Juntei tudo aqui: http://veramarmelo.pt/run/
Agora a paisagem é outra. Já não corro no Barreiro. E tenho saudades disso. Mesmo. Acho que a nossa paisagem não nos larga, por muito que façamos vida noutras paragens. Há ali qualquer coisa na paisagem das minhas corridas até 2021 que me faz sentir mais em “casa”.
Tinha isto nos rascunhos há algum tempo. No entanto, desde quinta-feira, engulo em seco sempre que penso em partilhar coisas na internet. Mas, ao reler isto, as palavras casa, paisagem e geografia, levam-me a Leiria.
Leiria é uma casa que adoptei desde 2018. Chamo-lhe casa por causa das pessoas que me chamam até lá. A cidade e a aldeia das Fontes são sítios que visito algumas vezes ao ano para fotografar. Neste momento o que me dizem é “não vais reconhecer este lugar”. E se por agora há uma missão de recuperação, quando a adrenalina passar, espero que os meus leirienses estejam prontos para aceitar esta nova paisagem e fazerem dela casa.
Os efeitos secundários disto tudo irão muito além dos mestrados em telhas que todos tiraram à força. Espero que o país saiba responder também a essa parte e não deixemos ninguém para trás.
Entretanto aqui ficam alguns links para ajudar:
https://www.caritasleiria.pt/caritas-leiria-ajuda-as-vitimas-da-tempestade-kristin/
https://www.gofundme.com/f/reconstrucao-do-telhado-do-texas-clube-leiria
Há informações sobre como ajudar, sempre em atualização, nos sites dos municípios afetados.
Do Barreiro partirá um autocarro na sexta, ainda vão a tempo de contribuir:



https://www.instagram.com/p/bdfr96IjJJ/
a única recordação destas corridas. <3
obrigada por essa partilha, Vera <3 deixaste-me a pensar nisto: "If we opened people up, we'd find landscapes" A. Varda